COLUNA – SAÚDE & BEM ESTAR

Setembro Amarelo: “como podemos ajudar?”

Cuidar de qualquer questão ligada à saúde mental envolve a articulação de várias ações, com diferentes níveis de complexidade. A abordagem mais atual sobre este universo pressupõe uma compreensão biopsicossocial dos fenômenos mentais, que vai influenciar tanto as ações voltadas à prevenção e promoção da saúde, como as intervenções terapêuticas diante das situações de adoecimento.

O movimento Setembro Amarelo enfoca um tema delicado – o suicídio -, que, como vimos anteriormente, nos coloca diante de alguns mitos e ideias equivocadas que, ao serem combatidos, já produzirão uma significativa ajuda. No entanto, é possível fazer mais e este texto indicará alguns caminhos.

Sabemos que o adolescente e o jovem (e, hoje em dia, inclusive as crianças) estão cada vez mais imersos num mundo distante dos adultos, navegando pelas ondas digitais da internet. Trata-se de um mundo extremamente rico em possibilidades de aprendizagem, de conhecimento e de conexões, mas que também pode favorecer um distanciamento do universo das relações presenciais, seduzindo usuários ao apresentar-lhes realidades virtuais extremamente idealizadas. Junta-se a isso o fato de nossa cultura colocar o adolescente em uma espécie de moratória social[1], num estado de suspensão, com reduzidas possibilidades efetivas de realização de projetos e ideias, desperdiçando sua preciosa energia. Mesmo com as sensíveis diferenças entre classes sociais, os adolescentes se deparam com a pressão das novas escolhas e, para isso, irão rever e avaliar, validando ou não, suas experiências de vida.

Assim, o primeiro passo para a promoção e prevenção da doença mental nos jovens é manter um canal aberto de comunicação. Parece simples, mas sabemos que não é. Para começar, se este canal for iniciado na infância, a probabilidade de se manter na adolescência é bem maior. Interessar-se verdadeiramente pelo universo dos filhos (Por onde navegam? Que aplicativos mais utilizam? Por que tipos de jogos se interessam? Quem são seus ídolos/ quem eles seguem nas redes sociais?); ouvi-los sem julgamentos prévios, respeitando-os como indivíduos em formação. Pesquisas indicam que não se sentir aceito (por exemplo, frente às questões de gênero) ou ser excessivamente cobrado (por exemplo, frente ao desempenho acadêmico) são gatilhos muito comuns para o agravamento de estados de depressão e ansiedade, que podem culminar em tentativas de suicídio. Na maioria das vezes, não se trata de um desejo de morrer, mas de livrar-se de um sofrimento insuportável que atinge em cheio aspectos da identidade do jovem que já vive suas próprias dúvidas e angústias. Criar um ambiente seguro e confiável para que ele possa se expressar é uma ação potente de ajuda e prevenção.

Um importante passo a ser dado, quando identificamos um possível indício de algo mais grave, é não ter receio de iniciar uma conversa sobre o tema. Claro que, para isso, o adulto precisa não expressar desespero e cultivar uma escuta de efetivo acolhimento e, assim, poder buscar a ajuda mais adequada (até porque nós, adultos, também precisamos assumir nossas dúvidas e limites perante nossos filhos). No site da BBC Brasil, encontramos um texto[2] com dicas práticas sobre como abordar o tema. Duas principais são: disponha de tempo e de um espaço tranquilo para conversar (não apresse ou preencha todos os momentos de silência com falas ou conselhos) e foque realmente no outro (desligue celular, faça contato visual, não se coloque no centro da conversa).

Também indicamos o vídeo realizado pelo CVV junto com a UNICEF: “O papel da família na prevenção do suicídio”, em  https://www.youtube.com/watch?v=542qsHL_e44&t=4s

Agradecemos sua companhia ao longo destes três textos e queremos finalizar nossa jornada com a sábia citação do escritor Arthur da Távola: “educar é educar-se a cada dia”[3]. Boa semana!

Heloisa Helena Garcia

Psicóloga Escolar do Colégio Benjamin Constant – CRP 06/30979

Mestre e Doutora em Psicologia pelo Instituto de Psicologia da USP

Referências:

[1] Indicamos o artigo “Adolescência sem fim”, de Ávila, L. A. (2011), disponível em http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1806-24902011000100007

[2] https://www.bbc.com/portuguese/brasil-49639644

[3] In “Alguém que já não fui”, Arthur da Távola, Editora Salamandra, 1978.