Assim como outros assuntos relacionados à nossa saúde mental, os temas depressão e suicídio são acompanhados por vários mitos, que dificultam muito o cuidado efetivo daqueles que necessitam.

O movimento Setembro Amarelo (coordenado, desde 2015, pela ABP – Associação Brasileira de Psiquiatria, Conselho Federal de Medicina e CVV – Centro de Valorização da Vida) tem, entre seus objetivos, sensibilizar a sociedade e mobilizá-la para ações de prevenção e promoção da saúde, desmistificando ideias de senso comum e fornecendo informações respaldadas pela área médica. Mesmo sabendo que nem todos os casos serão evitáveis, estudos pontam que em 90% deles é possível identificar sinais e evitar um final irreversível, como destaca a psicóloga Karen Scavacini, fundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio[1].

A primeira ação necessária é falar sobre o tema: como já abordado no texto anterior desta coluna, é um mito a ideia que devemos evitar tocar neste assunto, pois enfrentá-lo abertamente salva vidas. O segundo passo é desconstruir outros mitos frequentes, que podem agravar o sofrimento e inviabilizar a ajuda. Julgar a pessoa que pensa em tirar a própria vida como alguém fraco ou ingrato diante do que a vida lhe proporcionou, ou mesmo atribuir esse fato à ausência de religião ou de valores morais expressa profunda falta de empatia, desqualificando a experiência psíquica alheia, que é única, íntima e incomparável. Além do sofrimento real que já está vivenciando, o indivíduo se verá como um fracassado, aumentando os sentimentos de inferioridade perante si mesmo e de decepção perante os outros. Sofrimento mental, experiência religiosa e universo moral são dimensões distintas.

Outra reação reprovável é comparar a experiência do outro com a nossa. Tentar suavizar a situação, dizendo que todos sofrem, ou pior, hierarquizando as nossas dores perante as dores alheias, somente aumentará os sentimentos de desesperança e falta de sentido da pessoa que está sofrendo. Este tipo de atitude se baseia no mito de que a pessoa sozinha conseguirá reagir, se for confrontada com argumentos aparentemente lógicos ou objetivos. Os indivíduos nesta situação estão com o juízo de realidade abalado e distorcido, como consequência do seu estado emocional e, portanto, na maioria das vezes precisará de ajuda profissional para reorganizar suas experiências psíquicas.

Por fim, uma terceira reação comum – e extremamente grave – consiste em considerar “frescura” quando alguém expressa esse tipo de pensamento, acreditando no mito de que “quem fala, não faz”. Especialistas que lidam diariamente com pacientes e famílias que passam por experiências deste tipo alertam que quando alguém expressa um frequente desejo de morrer ou de não querer viver devemos escutar com sensibilidade e seriedade, entendendo que se trata de um pedido de ajuda.

O Canal Oficial do CVV no YouTube tem ótimos vídeos que nos ajudam a compreender melhor esse universo, dão preciosas orientações e que podem servir de eficazes mediadores, inclusive, para assistirmos junto com nossos jovens. Indicamos a seguir um deles, de uma série realizada em 2019 em parceria com a UNICEF: “o que não devemos fazer na prevenção ao suicídio”.

https://www.youtube.com/watch?v=N88STTQVaE8&list=TLPQMTQwOTIwMjD6YBVnv9F-nw&index=1

Viver é uma experiência intensa e desafiadora para todos e, seja nos momentos mais alegres ou nos mais difíceis, é fundamental lembrarmos que nunca estamos sozinhos! Boa semana!

Heloisa Helena Garcia

Psicóloga Escolar do Colégio Benjamin Constant – CRP 06/30979

Mestre e Doutora em Psic

[1] https://drauziovarella.uol.com.br/psiquiatria/e-possivel-prevenir-o-suicidio/